segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Longe de Casa


É sempre uma delícia ler Peter Carey, este livro não foi exceção.
A ação acontece na Austrália nos anos 50 do século passado. Enquanto vamos atravessando o país, à boleia da corrida Redex Trial, vamos conhecendo a história de Irene Bobs e do seu marido, e a de Willie, professor desempregado , que vai ser essencial no desenrolar da prova e do romance.
Um retrato de uma Austrália branca que exclui os aborígenes e o peso desta herança.  Livro com muitos momentos de humor, muita história recente e que aborda temas de grande atualidade e ainda não resolvidos pela sociedade Australiana, para além de bem escrito, claro!

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Lanny


Segundo romance de Max Porter, Lanny é o sucessor de O Luto é a Coisa com Penas sobre o qual escrevi aqui há cerca de dois anos.
Lanny é um rapaz diferente, curioso, que vive numa pequena aldeia Inglesa onde as lendas se misturam com a realidade e onde o papá dentilária, figura lendária local,  assombra as crianças. É por  intermédio deste último que vamos conhecendo a aldeia e os seus habitantes presentes e passados.
Quais são os planos do papá dentilária para Lanny?
Num estilo inconfundível, este livro agarra-nos com o suspense que se desprende de cada página, com a sua estrutura diferente e a sua escrita depurada.
Nomeado para a long list do Booker Prize Lanny é um livro que se recomenda.

domingo, 28 de julho de 2019

A Luz da Guerra


A Relógio d'Água é uma editora cujo invejável catálogo nos garante leituras de grande qualidade. O mais recente romance do Canadiano Michael Ondaatje é certamente um desses casos.
Em 1945 dois irmãos adolescentes são entregues pelos pais a um inquilino que é quase um estranho.  Alguns anos depois o narrador e protagonista dos acontecimentos escreve sobre essa experiência, sobre as memórias daquele misterioso grupo com quem partilhou tempos de descoberta de um mundo paralelo, de uma Londres de clandestinidade e de mistérios.
A memória como veículo para a (in)compreensão da vida, os mapas desenhados por Nathaniel como metáfora para as possibilidades de caminhos que a vida nos apresenta, servidos por uma escrita poética que faz da leitura deste livro um verdadeiro deleite.

sábado, 6 de julho de 2019

Máquinas Como Eu


Na Londres do início dos anos 80 Charlie vive de expedientes. Recebe uma herança que gasta a comprar um Adão. Adão é um robot quase humano. A partir do relacionamento entre estes dois e Miranda, a namorada de Charlie, irá formar-se um enredo em que a história se mistura com a ficção e no qual a temática das máquinas, as suas capacidades versus limitações e a questão do que nos torna humanos estão trabalhados de forma exímia. 
Prosa recheada de humor a abordar temas sérios. Mais um grande livro de Ian McEwan.

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Rua Katalin


Escritora Húngara de quem já estava editado entre nós o excelente A Porta, Magda Szabó retrata aqui a vida de três famílias que, antes da guerra viviam lado a lado e cujos destinos são destroçados por esta.
Nos anos 30 do século XX as 4 crianças destas famílias são inseparáveis e os seus destinos parecem traçados, no entanto, o início da II guerra mundial irá transformar as suas vidas. As perseguições nazis, a dor dos que regressaram da guerra, a ocupação soviética estão aqui soberbamente retratados. As memórias do passado a interferirem no presente e a condicionarem a possibilidade de futuro.

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Dor


De Israel chegam com regularidade bons escritores e bons livros. Zeruya Shalev foi a minha mais recente descoberta. Mais uma que fico a dever à excelente Elsinore.
Íris é uma mulher de meia idade cuja vida foi marcada por dois acontecimentos traumáticos: o abandono pelo seu primeiro amor e um atentado que lhe trouxe graves consequências físicas.
Passados dez anos sobre o atentado a sua vida segue num equilíbrio precário, tal como o seu casamento e a relação com a filha, jovem adulta. O reaparecimento do seu amor de juventude irá complicar a  fraca estabilidade da sua vida.
Uma leitura empolgante em que a dor na sua vertente física mas também psicológica, como o título deixa perceber, é o centro de todo o livro.

sexta-feira, 24 de maio de 2019

O Arquipélago do Cão


Tenho acompanhado a escrita de Philippe Claudel desde que o descobri através do seu fantástico Almas Cinzentas. 
Aqui, numa pequena ilha onde todos se conhecem, 3 cadáveres surgem na praia. O que fazer? A decisão tomada irá ter pesadas consequências. 
Uma história onde as migrações atuais se cruzam com a posição de indiferença ou mesmo desdém pelos destinos das vítimas. Um retrato duro mas subtil da sociedade atual. Com momentos mais intensos, a qualidade de escrita a que este autor já nos habituou.

terça-feira, 14 de maio de 2019

A Sexta Extinção


Trabalho jornalístico de grande fôlego este livro deu o prémio Pulitzer a Elizabeth Kolbert.
Num percurso que começa nas rãs e outros batráquios, passando pelos morcegos ou os grandes mamíferos, vamos deambulando por várias eras e épocas e acompanhando as grandes extinções que se verificaram ao longo da história da Terra. Também o trabalho de cientistas históricos e atuais está em análise. 
Uma abordagem clara de um tema de grande complexidade, acessível a todo o tipo de leitores num dos bons livros ao nosso dispor neste momento. 

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Guerra e Terebintina


Stefan Hertmans é um autor Belga com uma vasta obra editada e cujo Guerra e Terebintina, que chegou agora a Portugal tem sido aclamado no meio literário internacional, tendo sido nomeado para vários prémios e vencedor de alguns. A primeira guerra mundial e o avô do autor estão no centro da história deste livro. A pintura tem um papel crucial e as memórias são o fio condutor que nos faz viajar ao longo do século XX e até à atualidade.
Com uma faceta autobiográfica e também de ensaio lê-se com muito prazer.

quinta-feira, 28 de março de 2019

Assimetria


Este romance de estreia de Lisa Halliday foi considerado um dos melhores livros de 2018 nos Estados Unidos. As assimetrias chegam-nos em três partes: A primeira história acompanha um casal que vive na Nova Iorque dos pós 11 de setembro, em que uma jovem editora mantém uma relação com um escritor famoso em fim de vida . A história seguinte gira à volta de um homem com dupla nacionalidade - Americana e Iraquiana, que se encontra retido no aeroporto de Heathrow. No final voltamos ao escritor famoso que acaba de receber o Nobel e é entrevistado em jeito de balanço de vida.
As assimetrias são várias, desde a idade dos protagonistas da primeira e da última parte, às condições de vida dos Americanos e dos Iraquianos da segunda história. As questões que Lisa Halliday aborda são transversais: como ultrapassar as diferenças de género, de idade, culturais ou de poder? A solidão mesmo quando estamos acompanhados ou a dificuldade que nos conhecermos.
Um livro com muitas referências literárias e musicais, que está bem escrito e se lê com muito prazer apesar da estranheza.

quarta-feira, 6 de março de 2019

A Morte é um Dia que Vale a Pena Viver


Ana Cláudia Quintana Arantes é uma médica geriatra, especializada em cuidados paliativos, com uma já longa carreira e que aborda de forma clara e com muita sensibilidade uma temática que, não sendo de abordagem fácil, é de interesse para todos: a morte. 
Para quem pense que este é um livro negro ou deprimente devo dizer que foi uma leitura extremamente agradável e luminosa. Não se trata aqui apenas de morte, trata-se essencialmente da vida, e a vida é para viver até ao último sopro. É esta a perspetiva da autora, que nos fala de casos que acompanhou, da visão da morte que nós, ocidentais,  temos e acima de tudo da importância que tem a forma como vivemos os nossos momentos finais assim como os daqueles que acompanhamos - familiares, amigos, pacientes, etc.
Um livro a ler! 

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Eliete


Um dos lançamentos sonantes do final de 2018 foi, sem dúvida, o novo romance de Dulce Maria Cardoso. Depois do retumbante sucesso de Retorno, aguardava-se com expetativa este novo trabalho. E o resultado não desilude.
Eliete é uma mulher na casa dos 40 que não está bem na sua pele.
As relações com a mãe e a avó, que começa a sofrer de demência, e a rotina no seu casamento, são uma pedra no sapato para a sua realização pessoal. As dificuldades da sua vida  são, de certa forma, suavizadas pela  vida fictícia nas redes sociais. Até ao momento em que surge o Duarte.
Muitas questões de grande atualidade e a herança dos anos de ditadura na sociedade Portuguesa são alguns dos aspetos que tornam a leitura deste livro ainda mais interessante.
Um ótimo domínio da escrita num romance cujo desfecho fica adiado para um segundo volume a publicar no corrente ano.

sábado, 16 de fevereiro de 2019

Escolhas de 2018

Mais um ano com muitas leituras, como sempre umas melhores que outras. Como já vem sendo habitual, deixo aqui, novamente sem qualquer ordem de preferência, alguns dos livros que mais me marcaram ao longo de 2018. É sempre uma seleção difícil e ficam sempre de fora livros de excelente qualidade.





















A Guerra não tem Rosto de Mulher, Svetlana Alexievich - Elsinore






terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Inverno


Na sequência de Outono, chega agora Inverno, segundo volume da tetralogia da escritora Inglesa Ali Smith. 
Estamos em plena época Natalícia e o protagonista deste romance, de grande atualidade, decide ir passar uns dias com a mãe na companhia da sua namorada. O problema é que a namorada o abandonou e a sua vida está do avesso. Perante este cenário e não querendo dececionar a mãe contrata uma desconhecida para o acompanhar fazendo-se passar pela sua namorada. A sua tia irá completar o conjunto de personagens.
Num ambiente surreal e lúgubre o inverno faz-se sentir lá fora mas também no interior deste pequeno grupo dilacerado e à deriva.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

O Fim do Fim da Terra


A temática ambiental a ter lugar de honra neste livro de Jonathan Franzen, que,  sendo uma coletânea de ensaios escritos essencialmente nos últimos 5 anos, se lê com o mesmo prazer que nos proporcionaria um bom romance.
Um apaixonado e dedicado observador de aves, o autor relata-nos algumas das suas experiências, no âmbito deste seu passatempo, enquanto nos vai falando dos problemas da sua vida e das questões que o preocupam.
Um dos bons livros que chegaram a Portugal em 2018.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Princípio de Karenina


Afonso Cruz tem vindo a implantar-se no meio literário Português (e não só) como um dos nomes maiores da atualidade. O Princípio de Karenina traz-nos novamente um romance delicado e poético, onde o protagonista é um homem profundamente marcado pela sua infância e por um pai que vivia em clausura e que lhe incutiu o medo do mundo.
Num cenário de vida comezinha, restrita e restringida a um espaço muito limitado, surge o estranho e o exotismo por meio de uma empregada. Esta chegada de luz e ar puro irá transformar a sua vida e a sua visão do mundo.

domingo, 20 de janeiro de 2019

Histórias de Livros Perdidos


Pequeno mas interessante livro onde o autor, Giorgio Van Straten, nos relata várias histórias de livros que desapareceram sem deixar rasto. Sendo as suas origens muito diversas (de Nikolai Gogol a Walter Benjamin passando por Sylvia Plath, entre muitos outros), vamos seguindo as pistas que nos foram deixadas um pouco por todo o mundo.
Um livro sobre livros, sobre escritores, sobre a importância da nossa imaginação na leitura e na idealização dos livros.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Aquilo que Encontrei na Praia


Cynan Jones já é um dos meus autores Ingleses favoritos da atualidade. Depois da leitura de A Cova e A Baía tinha de ler  Aquilo que Encontrei na Praia.
Novamente uma história simples:  homens em busca de respostas para as suas vidas e muito suspense fazem deste romance uma leitura obrigatória.
O mar sempre presente - o protagonista é pescador e também os outros personagens têm ligações ao mar, é meio de subsistência mas também veículo de morte. 
A tensão está presente da primeira à última frase e o fim não desilude. O autor consegue, mais uma vez, trazer-nos um grande romance em que cada palavra conta.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Passagem para o Ocidente


O tema não podia ser mais atual: refugiados. Mohsin Hamid descreve um país muçulmano, supostamente do médio oriente, que entra em guerra civil o que provoca uma debandada dos seus cidadãos. Será o caso de Nadia e Saeed, dois jovens oriundos da classe média, com vidas confortáveis, que se apaixonam mas se vêm forçados a partir. A única possibilidade de fuga deste inferno em busca de uma nova vida faz-se através de "portas" que são difíceis de encontrar e que comportam muitos riscos. Nesta fase do romance a dureza da realidade é, de certa forma, suavizada pela "fantasia" com que o autor nos relata estas fugas e as subsequentes passagens por campos de refugiados. 
A erosão provocada nas pessoas e nas suas relações por estas deslocações, pela dureza das condições de vida, pela luta pela sua aceitação nos locais onde vão parar, irá afetar os nossos protagonistas tanto a nível da sua relação como na forma como cada um deles vai sentir-se relativamente ao seu país ou à religião.
Foi o segundo romance que li deste autor e que confirma a excelência da sua escrita.
Uma abordagem diferente mas excelente a um tema difícil e delicado.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Se esta Rua Falasse


James Baldwin foi um escritor Americano exímio no retrato da sociedade Americana do século XX - em especial da comunidade Afro-Americana, e na luta pela defesa dos direitos civis da mesma.
Neste breve mas intenso romance acompanhamos a história de amor de Tish e Fonny, dois jovens que em consequência da sua cor de pele vêm os seus planos de futuro desvanecer-se. Foony é preso, acusado de um crime que não cometeu e Tish descobre que está grávida.
As várias tentativas de ilibar e libertar Fonny vão-se sucedendo e o estado de espírito dos personagens vai evoluindo.
O racismo e a exclusão social no centro desta história que nos deslumbra e nos prende até à última frase.